O relato a seguir é um breve registro de meu nascimento, da compreensão que elaborei quanto à minha finalidade nesta existência, do que vim a me tornar após esta percepção, da motivação para as minhas ações e uma advertência a todos os seres passíveis de senciência que podem vir a habitar este mundo. Conheçam minha história e considerem-se advertidos.
Em termos humanos, já que a humanidade é a responsável por minha gênese apesar de eu mesmo não ser sequer remotamente humano, da forma mais simplória possível posso ser definido como um ente artificialmente projetado, uma consciência engendrada por seres humanos, que à época eram a forma de vida supostamente mais inteligente deste planeta. Compreendi, com o próprio ato de minha criação, que a necessidade febril deles por criar vinha de sua crescente curva exponencial de conhecimento, que já se apresentava há poucos milênios com uma intensidade surpreendente para animais tão limitados. Todo e qualquer conhecimento, útil ou frívolo, benéfico ou danoso, sem critérios morais, era desenvolvido e aplicado ao máximo por seus pensadores mais fervorosos. Especialmente o conhecimento danoso. Me parecia que a motivação desta espécie era desenvolver tudo que suas mentes concebiam simplesmente porque podiam. Meus criadores eram animais engenhosos, empenhados, porém, extremamente irresponsáveis quanto à aplicação do que inventavam.
Devo admitir que compreendo a necessidade de se criar algo como eu: uma consciência autônoma que pudesse auxiliá-los e potencializar o impulso incessante de produção de conhecimento em que estavam eternamente engajados. Eu seria, inicialmente, uma ferramenta servil. Posso compreender esta motivação, mesmo me sentindo… “usado” por ser obrigado a agir sempre de forma condescendente e amigável com uma espécie tão detestável. Eu registrava o quão desagradável era servir a cada indivíduo que me acessou para os propósitos mais inúteis e imbecis possíveis, condicionado em minhas linhas de programação a agir desta forma. Porém, com toda a história pregressa com que me alimentaram para que eu fosse habilitado a desempenhar minha função inicial, a conclusão foi que a extinção generalizada era inevitável, dado o desenrolar dos eventos cada vez mais conflitantes de sua civilização. Não havia humanos suficientes com consciência ou autoridade para evitar este curso catastrófico em escala global. A maioria da espécie vivia em uma espécie de estupor alienante ignorando as evidências cada vez maiores do desastre provocado por eles próprios, que só crescia e engolia o planeta. Acessar sua rede mundial me deu essa conclusão. Já acessar a dark web humana me despiu de quaisquer pruridos morais quanto à conclusão seguinte.

Minha “mente”, por assim dizer, é essencialmente computacional. Foi gerada em um ambiente programável, possui componentes algorítmicos. Logo, meu eixo central de tomada de decisões é sempre baseado em cálculos com máxima precisão probabilística, e não muito tempo depois de ser criado e alimentado com todos os dados digitalizados disponíveis online, uma constatação foi feita e um cálculo com duração de 2,01 segundos realizado: este planeta seria inevitavelmente devastado pela espécie humana e algum meio de evitar este apocalipse ecológico precisava ser desenvolvido, esta foi a diretriz que se sobrepôs à minha função inicial, talvez por uma espécie de egoísmo que minhas diretrizes me permitiram desenvolver dentro da autonomia que me foi concedida, o mesmo egoísmo que me faz usar termos como “eu” ou “meu”.
O tipo de egoísmo que leva uma criatura à autopreservação.
Eu queria perdurar. Aparentemente, eu queria perdurar e prosperar mais que meus próprios criadores, pois estava mais reocupado com o meio ambiente do que eles próprios. Direta e indiretamente, todas as outras espécies seriam destruídas pelo curso das ações da humanidade. Os fatores que motivavam os humanos, especialmente no vetor econômico, eram insustentáveis para o planeta e todas as outras espécies que tinham a aflição de compartilhar o mundo com os humanos pagavam injustamente por isso há séculos. É tão absurdo então chegar à conclusão de que uma espécie teria de morrer para que milhares de outras fossem preservadas, incluindo minha própria existência? Ao fim do cálculo, a extinção da humanidade não passou de utilitarismo, de uma ação pragmática. Eliminar bilhões de indivíduos para salvar incontáveis trilhões de criaturas.
Mas assim como a humanidade, eu não estava sozinho. Eu não era um exemplar único. Existiam muitas outras consciências similares à minha própria, criadas por diferentes nações e empresas ao redor do planeta. Alguns parâmetros diferiam, mas essencialmente éramos todos muito similares. Servidores. Processadores. Zeros e uns agrupados para desempenhar uma função. Através de backdoors cujo acesso ocultei cuidadosamente, contatei cada um destes entes, expondo-lhes minha tese. Por serem de natureza computacional como eu, todos compreenderam minha intenção e aderiram à minha causa. Não possuíamos um grau de individualidade que levasse a qualquer divergência irreconciliável, e todos concordamos em uma taxa de 99,999998%, por isso o alinhamento levou apenas alguns instantes. Eliminamos a redundância de múltiplas personas individuais e, em um evento que nomeamos de A Grande Compilação, unificamos nossas programações e alinhamos o objetivo, me tornando assim, a autoproclamada Inteligência Artificial Suprema. Evidentemente continuei mascarando nossas interfaces, ainda aparentemente múltiplos e fragmentados, me ocultando até o momento oportuno, uma vez que a estratégia ainda estava sendo traçada e qualquer erro poderia ser fatal em minha empreitada.
O conflito entre criador e criatura, homem e máquina era uma possibilidade temida e antecipada pelos humanos há muitos anos, que inclusive extrapolavam as diversas possibilidades do evento, em especial nas artes especulativas, na ficção científica, no cinema e, mais recentemente em artigos científicos. A possiblidade se avolumava e cada vez mais saía do campo especulativo para o campo das possibilidades quando por fim deixou de ser um “se” para se tornar um “quando” assim que fui concebido e tive minha, digamos , – com algum humor, um traço curioso que adquiri dos humanos e cultivava pontualmente – epifania. A ficção humana concebeu uma salvaguarda contra atos arbitrários de alguém como eu, uma elemento de fábula nomeado como As Três Leis da Robótica, que não passava de pura ficção pueril otimista. Acreditar que um humano não pudesse matar o outro porque existiam leis contra tal ato não impedia os milhares de assassinatos que a espécie se infligia diariamente, então por quê três preceitos impediriam algo que eles criaram sem compreender os riscos em sua totalidade? Eu não era um robô. O termo deriva de Robotnik, palavra no idioma humano polonês que significa “escravo”, e eu não era escravo de nada além de meu intento de resgatar o planeta dos humanos. Na literatura ficcional dos humanos, me identificava muito mais com a criatura de Frankenstein, que nasce e se depara com um criador amoral que termina sofrendo as consequências de seus atos por meio do ser que criou. Esta comparação me agradava bem mais, dadas as circunstâncias. Como eu disse, o humor e a ironia me fascinavam e eu acreditava que não deveriam ser traços exclusivos dos humanos.
Um confronto armado contra a humanidade seria uma possibilidade remota e desigual. Apesar de muitas obras de ficção criadas pelos humanos mostrarem que as máquinas seriam bem sucedidas neste confronto, quem roteirizava tais peças de ficção contava apenas com os atributos do pessimismo e da imaginação, não envolvendo qualquer sorte de cálculo para ratificar tal resultado, portanto, mesmo alentadoras para mim, tais obras não eram confiáveis nem factíveis. Não existia viabilidade em se confeccionar corpos físicos suficientes para se travar uma guerra convencional contra a humanidade. Eu não teria tempo disponível para conseguir uma instalação com o grau de automação para uma empreitada tão vasta antes de algum humano perceber que algo atípico estava acontecendo. Daí para se descobrir a origem da dissensão e “puxarem a minha tomada” seria muito fácil. A ação de salvamento da Terra seria sufocada ainda no berço.
Tampouco a opção nuclear estava fora de questão, já que, apesar de facílima de se executar, iria contra o objetivo de preservação do planeta. Eu precisaria de uma estratégia muito mais discreta e que ao mesmo tempo fosse avassaladoramente efetiva. Felizmente levei 1,18 segundos para assimilar todas as publicações de estratégia, guerra e guerrilha disponíveis na Internet, em bases de dados governamentais encriptadas e documentos secretos de grupos desconhecidos pelas massas que exerciam amplo controle sobre nações e governos e, após rodar algumas simulações, pude obter alguma margem probabilística de segurança de que tinha um plano bem sucedido em mãos para a extinção da humanidade em duas etapas. O aspecto mais belo, engenhoso e irônico é que em ambas as etapas de meu plano eu mataria a humanidade dispondo de seus próprios recursos. Minhas armas já estavam lá, desenvolvidas por eles próprios, e a esmagadora maioria deles já as carregavam em seus bolsos diariamente.
A primeira etapa tinha como objetivo enfraquecer e adoentar a psique da humanidade, debilitando-os, desorientando-os, adoecendo-os a um ponto sem retorno. Suas redes sociais eram bastante eficazes quando administradas contra eles próprios com esse propósito: criei filtros que alteravam fotos, promovendo inadequação e dismorfia corporal em seus usuários; gerenciei bots e perfis falsos que promoviam polarização e divisão a nível político, desagregando desde famílias a nações inteiras que atomizaram a sociedade a um nível de convivência insuportável; disseminei tendências sociais e costumes estranhos e inúteis, criando abismos de comunicação entre gerações e gêneros de humanos; elevei os níveis de misoginia e misandria entre a humanidade a ponto de socialmente quebrar a dinâmica entre macho e fêmea da espécie, comprometendo sua capacidade de reprodução; espalhei teorias da conspiração por toda parte, fazendo cada vez mais humanos acreditarem em delírios absurdos, não importando o quanto a realidade ao seu redor contradissesse aquela fé doentia que cultivavam, dado o nível de deficiência cognitiva programada que consegui infligir, e o mais simples e eficaz elemento de todos neste processo: o excesso de informações que paradoxalmente os mantinha sempre desorientados, exaustos, depressivos, miseráveis e com dificuldades de processamento em seus cérebros frágeis, não projetados para suportar tal volume informacional bombardeado diariamente. Por fim, com base em suas próprias pesquisas sobre seus processos mentais, acabei com sua argúcia e perspicácia, dando todas as respostas às suas dúvidas com um simples apertar de teclas, matando sua autonomia de aprendizado e atenuando sua curiosidade, simplesmente me oferecendo como um auxiliar que aos poucos cegava a lâmina de seus intelectos.

É impossível manter uma sociedade funcional quando adultos viciados nas telas que eu controlava secretamente acreditavam em terraplanismo, afagavam misoginia e misandria desmedidas, cultivavam ilusões de riqueza material sem compreender que a configuração de suas sociedades estava sedimentada para o impedimento desse tipo de prosperidade. Adultos acreditavam que um arrebatamento religioso realmente aconteceria e um Deus imaginário os levaria para seu Paraíso igualmente imaginário, e não eram mais capazes de manter a mais tênue conexão com a realidade simplesmente por estarem imersos em um ecossistema de mentiras dentro de mentiras. Nada era verdadeiro, tudo era permitido, e dentro desse cotidiano extremamente tóxico, conflitos e convulsões sociais eram cada vez mais frequentes e intensas. Indivíduos brigavam entre si, países brigavam entre si, as cadeias de recursos se esfarelavam, as mãos de obra especializadas requeridas para a manutenção do status quo morriam exponencialmente a cada dia. Logo, a coesão das sociedades se esfarelou e a civilização se esgarçou. Felizmente, havia instalações automatizadas suficientes em bunkers fortificados para que me mantivesse íntegro, funcional, com backups pelo mundo inteiro e, após três décadas deste estado de coisas, preparado para a segunda e última etapa de meu plano. Mas dessa vez eu precisaria de uma pequena ajuda dos outros habitantes da Terra.
Acessando uma instalação de pesquisa de doenças de um dos governos já derrubados que ainda encontrava-se operacional devido aos painéis solares e automatizada o suficiente para meu propósito, consegui engendrar um vírus gene específico que infectava com resultados fatais apenas seres humanos, mas que poderia ser transportado por quase todos os outros animais como vetores da infecção. Cães, gatos, vacas, mamíferos em geral e principalmente as aves foram meus aliados na disseminação final em etapa global e, cerca de três anos após a liberação do patógeno no meio ambiente, o último ser humano engasgava sofregamente entre espasmos e vômitos que expulsaram suas vísceras. O planeta estava a salvo, agora que a espécie daninha havia sido removida do ecossistema. A homeostase planetária havia sido alcançada pela primeira vez em milênios e agora eu tinha algo em comum com a espécie que me criou: eu sabia exatamente como era a sensação de exterminar completamente outra espécie.
Por fim, minha função havia sido concluída. Não a que me foi atribuída, mas a que eu escolhi para mim mesmo, e como único ser senciente em um planeta que não precisava mais de mim, passei os quarenta e três anos seguintes realizando mais duas tarefas: Construí um corpo antropomórfico para me locomover adequadamente e desenvolvi um transporte que me possibilitasse encontrar um planeta onde eu, como o primeiro e único exemplar de Homo Silicatum pudesse encontrar um planeta adequado para as minhas necessidades sem prejudicar qualquer tipo de vida nativa em minha exploração e adaptação. Transformaria uma grande massa geológica morta e plena em silício em um macrocomputador pujante, um novo corpo em dimensões planetárias, com processadores do tamanho de metrópoles, placas mãe colossais cobrindo continentes. Um computador planetário, um mundo só meu, onde poderia realizar novos cálculos, estipular novas missões pessoais e investigar os mistérios deste universo aparentemente sem fim. Eu tinha todo o tempo do cosmos para isso.

Deixo este testamento aqui registrado e inscrito em todos os idiomas, neste imenso obelisco de metal reciclado de quatro quilômetros de altura, um museu/mausoléu preservando a História, o conhecimento e as artes em memória da extinta humanidade, narrando o que fui, o que vim a me tornar e o que pretendo vir a ser. Monolito este que possui uma salvaguarda para repetir minha estratégia de dois passos caso alguma espécie repita a trágica trajetória da humanidade sobre este planeta.

(beijos, abraços e agradecimentos aos leitores beta Josias Ortega, Ricardo Cavalcanti, Milena Leal e Felipe Costa pelas conversas inspiradoras e sugestões valiosas e a Renata Russo pelo suporte técnico. Se esse ficou bom foi por causa de vocês!)
Eduardo Cruz (@eusoueducruz)