(Mais uma vez, nada foi inventado aqui, nem os personagens, nem as situações. Só me esforcei para dar a melhor descrição possível do que poucos testemunharam e, claro, alterei os nomes dos envolvidos 😉…)
Alleksandro era o típico nerdola. Já tinha passado dos quarenta anos de idade e nunca teve mais do que dois relacionamentos, ambos de curtíssima duração quando mais jovem, já que o rapaz nunca foi um grande conhecedor do sexo feminino e suas particularidades. Nunca tivera lá muito jeito pra se integrar com o mulherio, jogar o jogo de conquista e sedução. O resultado disso era a solidão em uma idade onde a maioria de seus amigos e colegas de trabalho já estavam casados, alguns com filhos. Morava com sua mãe Arminda e Adriana, a irmã mais nova. O pai, falecido muitos anos antes, fazia o jovem trabalhar duro vendendo sanduíches de porta em porta. Por serem de uma família humilde, após a morte do coroa, Alleksandro começou a trabalhar de carteira assinada para completar o orçamento doméstico com a pensão da mãe e o salário da irmã, que era recepcionista em um consultório dentário. Nunca teve a oportunidade de concluir o ensino médio e gostava, nas horas vagas, de assistir séries, filmes e de ler histórias em quadrinhos. E fora o trabalho, isso era tudo que Alleksandro fazia: lia HQs e assistia os filmes e séries que reproduziam os quadrinhos que lia, mas com atores de carne e osso.
Não se sabia ao certo se era um caso de timidez aguda, dificuldades de se lidar com o sexo oposto ou algum outro motivo mais complexo. O rapaz não tinha namoradas. Mas adorava suas revistinhas, em especial o Homem-Aranha, seu favorito desde criança. Também adorava action figures, os populares bonecos de hominhos. Gastava grande parte de seu salário de vigia noturno em estatuetas caríssimas do Superman, Jaspion e, claro, do seu Amigão Cabeça de Teia, mas sem nunca deixar de ajudar em casa. Vícios? apenas dois: os cigarros, que fumava compulsivamente – o que era notado em sua voz, cada vez mais rouca e catarrenta – e a pornografia, sua fissura suprema. A obsessão de suas madrugadas insones. O rapaz navegava a Internet por muitas horas atrás de conteúdo sexual, satisfazendo seus fetiches e aumentando seu acervo de preferências pessoais.
Na verdade, desde a época das locadoras de bairro, Alleksandro era aquele cliente que religiosamente todas as sextas-feiras chegava na loja e entrava de fininho na seção de filmes adultos, grande entusiasta da promoção “Alugue 8, pague 7 e devolva só na terça-feira”. As energias do rapaz solitário, fora o colecionismo pelas mesmas histórias em quadrinhos que lia desde criança e os bonequinhos caros, eram depositadas em todo aquele imaginário erótico que as dúzias de material pornográfico lhe proporcionavam. O solitário solteirão passara boa parte de sua vida trancado em seu quarto assistindo e reassistindo os filmes pornográficos alugados, retendo cada cena na memória antes de devolver as fitas (que pouco depois evoluíram para os DVDs) à locadora. Mas isso foi antes de a Internet doméstica chegar em Vila Norma.
Os anos passaram e os dispositivos eletrônicos ficaram mais modernos, menores e mais acessíveis, e é claro que a pornografia mudou junto com a tecnologia. Allekssandro havia adquirido um computador para navegar pelo buffet ilimitadamente variado que era a pornografia na internet e até mesmo adquiriu preferências pessoais: ele desenvolvera um fetiche pelos vídeos amadores, sendo o upskirt, a categoria que mais lhe excitava. Essa modalidade erótica não consistia em nenhum ato sexual entre duas ou mais pessoas. Era apenas o flagrante filmado, espontâneo ou de espontaneidade ensaiada, da filmagem das roupas íntimas de mulheres usando vestidos ou saias. Simplesmente vídeos de câmeras filmando calcinhas por baixo das saias sem que as mulheres notassem. Ou um simulacro desse desconhecimento para excitar a clientela especializada.
Como qualquer outro fetiche, a intensidade do ato dispensava quaisquer explicações, aquilo era para ser sentido. Talvez fosse a sensação de se estar espiando algo proibido, talvez fosse a discrição extrema que o ato exigia para ser fruído os elementos que iam de encontro à sua própria condição de homem distante das mulheres de fato, mas sempre ávido e curioso pela intimidade feminina, como todo solitário excitado. O fato era que aquela categoria o excitava muito mais do que qualquer outro conteúdo que ele já tivesse pesquisado – e pesquisa foi algo que não faltou nas madrugadas onanísticas de Alleksandro! -, porém, como todo vício evolui para uma escalada, o rapaz sentiu um descontentamento cada vez maior em continuar apenas assistindo. Trancado em seu quarto, refletia sobre a simplicidade e a facilidade operacional do upskirt, e chegou a uma simples conclusão: “Eu posso fazer isso!“.
Foi o pensamento que o colocou na estrada para sua própria perdição.

Alleksandro adquiriu um celular com uma boa câmera, um cartão de memória espaçoso e foi à luta! Entre as tentativas e erros, se especializou em adaptar mochilas, caixas de papelão, sacolas de supermercado e outros recipientes para acomodar o celular na melhor posição possível, tudo para garantir a discrição da filmagem. Seus dispositivos nem sempre conseguiam bons resultados, mas era esperto o suficiente para, ao notar que estava sendo observado, interromper as filmagens e dar no pé antes que as suspeitas aumentassem. Saias dando sopa não faltavam por aí…
Logo, o acervo pessoal de Alleksandro crescera exponencialmente, e os vídeos de sua autoria espionando as roupas íntimas de suas conterrâneas já batia os três dígitos. Centenas de vídeos, com média de 20 a 30 segundos de duração, mostrando o insondável – para o espião – mistério de como era o território inexplorado debaixo das saias e vestidos das lindas moças que circulavam todos os dias, nas ruas, nos pontos de ônibus, nas filas, nos coletivos das redondezas. Nilópolis, São João de Meriti, Duque de Caxias. Esse era o grande estúdio de filmagens de Alleksandro, e todas eram suas atrizes, em filmes onde sua mão de diretor era a mais discreta possível. Esse era o acervo, ou melhor dizendo, legado de Alleksandro.

Tudo havia virado uma grande rotina. Sair. Prospectar a dona da calcinha em potencial a ser filmada. Se posicionar adequada e discretamente. Garantir o enquadramento perfeito. Gravar o máximo de tempo possível. Repetir. Era um hobby que dava muita satisfação em mais de um sentido. Alleksandro se sentia realizado. Havia descoberto sua grande vocação na vida! Será que um dia, quando morresse, sua irmã ou outro parente descobriria seu acervo, que exigira tanto esforço e dedicação para ser composto, e faria um museu em sua memória? Alleksandro sonhava grande enquanto se masturbava visitando e revisitando os frutos de sua peregrinação pelas ruas, gozando com o estímulo visual, com aa emoção das filmagens proibidas, e também gozava om os devaneios que estimulavam seu ego: MUSEU ALLEKSANDRO GOMES DE UPSKIRTS AMADORES. Não soava nada mal. Nada mal mesmo…
A derrocada aconteceu em um dia como qualquer outro. É nos momentos banais que a calamidade toma conta, e com Alleksandro não foi diferente. Naquela tarde o não tão jovem rapaz estava no supermercado PreçoÚnico de Nilópolis, comprando alguns itens em falta na despensa, quando entre as gôndolas de feijão e arroz e a de enlatados e conservas, avistou uma morena maravilhosa. Escultural e com medidas generosas, a moça estava usando um vestido de algodão estampado, curto e bem solto no corpo, justo apenas no escandaloso quadril da mulher. Aquilo era um convite para o diretor solitário realizar mais uma peça cinematográfica, talvez sua obra prima! Sem pensar, Aleksandro sacou seu celular para registrar mais um upskirt memorável para seu acervo. Mas talvez a excitação pela morena escultural o tenha deixado descuidado e mais burro do que o normal, pois ele estava filmando a moça muito de perto, logo atrás dela, que se inclinava para ver os produtos de uma prateleira mais baixa.
Sem nenhum disfarce ou subterfúgio, Aleksandro filmava as partes íntimas da moça sem a menor cerimônia, segurando o celular diretamente abaixo dela. Nunca havia sido tão descuidado, mas aquela mulher havia mexido com ele! Ela tinha que ir para o acervo, mais uma musa eternizada!

Mas tamanho descuido não passou despercebido. A moça, que não estava assim tão distraída, notou a movimentação atrás de si e logo deu o alarme com o que ela concluiu ser um tarado filmando suas partes íntimas. Sem demora, Alleksandro foi agarrado por dois funcionários que estavam repondo mercadorias nas gôndolas próximas e levado para uma salinha nos fundos do mercado. Após vários minutos intermináveis um guarda da PM chegou, anunciando ser o noivo da moça assediada. Alleksandro gelou na hora, prevendo que sua situação piorara sensivelmente com aquele novo fato.
Sem demora, o policial militar, auxiliado pelos dois funcionários que o capturaram no flagra, lhe deu uma surra federal. Não um espancamento que levasse o rapaz à hospitalização ou risco de vida, mas ainda uma belíssima surra. Alleksandro apanhou bastante do PM e dos dois funcionários, cidadãos solícitos que auxiliaram na captura do elemento pervertido. Uma surra dolorosa e desmoralizante. Como dizem por aí, apanhou até na sola do pé pra deixar de ser otário. Já jogado no chão e cheio de marcas vermelhas que prometiam virar hematomas em algumas horas, o nerdola quarentão foi liberado e advertido a nunca mais fazer aquilo, mas não sem antes ter seu celular confiscado. Pelo menos a honra de uma de suas vítimas havia sido vingada, redimida com muita bolacha. Também o advertiram de que nunca mais pusesse os pés naquele supermercado novamente, essa era a outra condição para ser liberado assim, “no lucro”.
Uma pena, porque a marca de achocolatado que ele mais gostava só era vendida naquele mercado.
Eduardo Cruz (@eusoueducruz).
Os Contos da Zona são histórias escritas pelos membros da Zona Negativa, com o objetivo de expandirem a produção de conteúdo para além das resenhas. Assim sendo, esperamos proporcionar boas experiências de leituras e reflexões. Deixe seu comentário.