Hoje irei falar sobre um dos mangás mais apaixonantes que já li na minha vida, e o descobri esse ano, numa leitura de mais um lançamento da Editora Pipoca e Nanquim, título defendido até pelo próprio Alexandre Callari como o melhor mangá até agora lançado pelo selo.

Nesse mangá temos a história de um artista incansável, mas ao mesmo tempo, um homem de seu tempo, um homem que definiu toda a influência estrangeira que o Japão ganharia a partir de meados do século XVII, uma biografia do artista Katsushika Hokusai, escrita e desenhada pelo nada mais nada menos que genial Shotaro Ishinomori, mais conhecido por ter sido o criador do grande Kamen Rider. Já Hokusai, que apesar de soar como um desconhecido, é o homem que provavelmente você deve conhecer pela arte clássica intitulada “A grande onda de Kanagawa”, da qual existe até emoji. Um clássico, mas não só de uma arte famosa viveu este homem icônico.


Segundo o escritor Plekanov no livro O papel do Indivíduo na história o sujeito histórico é moldado pela sociedade em que vive, e não por suas escolhas individuais, sendo suas atitudes apenas reproduções pensamento vigente do seu tempo, e nada mais justo que definirmos o nosso artista Hokusai dessa mesma forma, um homem que nasceu justamente no período de transformações sociais do Japão, que já buscava não ser apenas um país feudal, mas sim uma potência industrial inspirada em seus vizinhos europeus, se abrindo mais e tanto recebendo influências culturais quanto exportando tais representações do seu país para fora. Hokusai nasce em meados de 1760, no distrito de Honjo, e desde criança se mostra atraído pelas figuras e artes que consegue ver dos livros de infância. Com todo esse desejo, já em 1775 se torna aprendiz de xilógrafo, aprendendo essa arte que no começo não o satisfazia, já que o mesmo preferia desenhar as artes do que apenas gerar cópias por meio dos moldes da xilogravura.


Genial e mundano
No ano de 1778 ele se torna discípulo de seu primeiro mestre, o pintor e gravurista Katsukawa Sunsho, e daí ele parte para o primeiro dos mais diversos pseudônimos que ele irá adquirir com o passar do tempo, nunca se atendo a apenas um mestre, sempre querendo aprender novas técnicas de desenho e não se acomodando dentro de um só estilo. Simultaneamente ao seu interesse por aprender novas técnicas também se dá, por conta de sua juventude, o interesse por mais um dos seus diversos vícios além do desenho: as mulheres. O artista além de ter se casado diversas vezes, às vezes para mudar de nome, às vezes por apenas impulso sexual. Em 1793 ele é expulso da escola Katsukawa e se vê infeliz num casamento forçado muito jovem, onde ele desposou a filha do mestre em xilogravura, porém ao mesmo tempo se vendo obrigado a mais uma vez mudar seu nome e seu estilo de arte. Nesse mesmo ano ele muda o seu nome para Mugura, e em 1795 ele se casa novamente, dessa vez com a viúva do artista Tawaraya Souri e assume seu título, um homem viciado em sexo, em bordéis e saquê nos bairros da luz vermelha do Japão, porém ao mesmo tempo isso já se mostra bem nítido em sua arte.

Hokusai sempre buscou contar uma história em sua arte, e pegar o ponto de vista do público que observa a arte, como se o público fosse também uma parte indispensável da obra. Hokusai focava muito sua obra na natureza e nas pessoas, rompendo com a arte metafísica dos tempos feudais, mostrando que com a transformação cultural já era necessário falar sobre o humano, o materialismo, sejam encontros na ponte, sejam cenas de momentos íntimos entre pessoas, mas sempre mostrando o caráter belo dessas relações; belo e ao mesmo tempo mundano, motivo esse que até o faz ser banido das casas dos seus professores artistas, por frequentar muitos lugares da noitada nipônica.


As eternas estrelas do norte de Hokusai
Hokusai era o artista que mesmo no auge dos anos que dizem ser o de maior maturidade do artista ainda se achava incompleto, que achava que ainda tinha muito tanto para aprender quanto para produzir, e muitas vezes se recusava a produzir suas artes para diversas personalidades de sua época pelo simples fato de não se sentir desafiado e de o trabalho transmitir uma sensação de acomodação, de fazer a mesma coisa para apenas buscar dinheiro, coisa que apesar do artista amar para gastar em bordeis e saquê, também não era o único fim para sua arte. Sua arte, para ele, era como a tentativa da representação da própria natureza, de todas as suas fases e contradições, de todas as suas representações ao longo dos anos e suas estações; ele transmitia a dialética dentro de sua arte mostrando que tudo é efêmero e tudo passa rápido, que até os primeiros momentos de uma onda devem ser entendidos em sua lógica antes de serem desenhados, e só assim para ele haveria a possibilidade de se atingir com precisão a fidedignidade do que queria transmitir. Uma realidade não só em busca de transmitir o real em si, mas sim em mostrar as diversas contradições e fases de uma só coisa, as próprias mudanças. Para captar todas essas coisas ele desejava viver mais de 100 anos, de ter essa idade e ainda produzir arte, uma arte cada vez mais condizente com seu tempo, cada vez mais aperfeiçoada e de acordo com as visões das mesmas paisagens e locais que ele via ou imaginava, não é a toa que a Grande Onda de Kanagawa só vai ser apresentada ao mundo com o autor da obra já no auge dos seus 70 anos, em uma de suas diversas viagens para captar e ver o Monte Fuji, viagens estas que renderam um álbum de artes só de representações de visões do Monte Fuji, em vários ângulos e de várias regiões e locais diferentes.

Um dos verdadeiros pais do mangá
Já finalizando minha resenha, com o intuito de fazer com que você se atraia pela leitura maravilhosa desse mangá e descubra por si só todos os detalhes da biografia dessa figura polêmica e interessante que foi o Hokusai, temos um embate voltado em meados já do século XVIII, no ano de 1805, onde ele lança vários livros ilustrados com o escritor Bakin, onde vemos muito bem a rivalidade e até competição entre o roteirista e o desenhista dentro das obras; vemos ali o começo das primeiras obras onde se mistura tanto a escrita quanto a representação imagética, o desenho e ilustração, dando todo o caminho para o famoso mangá que irá conquistar o mundo nos próximos séculos.

Não percam tempo, se apaixonem por esse mangá maravilhoso, viajem pelos belos cenários, sintam as viagens exaustivas para descobrir novas localidades, se inebriem com o perfume das mulheres, pelo cheiro de saquê e fumo, e também pelas belas artes muito bem reproduzidas pelo Shotaro, um mangá que além de ser uma aula de história, é uma linda carta de amor à vida e à arte!



- Editora : Pipoca e Nanquim (30 abril 2021)
- Idioma : Português
- Capa comum : 612 páginas
- Preço de capa: 89,90
Texto por: Matheus Martiniano @martinianofromars
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Realmente um trabalho genial.
E parabéns pela matéria, ficou impecável.
Valeu Pri!!!