A nostalgia do City Pop

Você se encontra nostálgico, com saudades de um mundo que talvez nunca exista. Devido a um futuro incerto, você talvez se sinta sozinho nesse momento, eu também me sinto, por isso você não está sozinho. Consequências de nossa realidade cada vez mais instável, buscamos refúgio no passado, naquele que é guardado na memória coletiva, no “MEME” como diria o biólogo Richard Dawkins sobre as nossas heranças sociais e coletivas e não simplesmente hereditárias.

A sensação de alienação,de estar sozinho na multidão, contemplando as luzes da cidade e sua beleza.

De repente você encontra uma música que te faz pensar em dias ensolarados, em estradas infinitas e carros luxuosos num dia simplesmente perfeito, em que todos os néons da cidade brilham como se fossem o sinal da recuperação da esperança perdida, musicas de décadas perdidas do passado, também conhecida como a utopia perdida, também chamado de CITY POP.

o cenário perfeito para uma verdadeira utopia.

O City pop surge em um dos momentos mais sombrios da história japonesa, quando ao final da segunda guerra o povo perde seu poder duplamente ao ter que se submeter tanto ao governo americano, que instaura um regime de “controle” do Japão tanto para não haver uma revolução no país, dado o contexto da guerra fria, quanto para não perder um grande aliado nas fronteiras entre China, Coréia e Vietnã. Ameaçando os países por meio do Japão, forçando mais hostilizações e buscando a hegemonia dentro do globo, e também hostilizado pelo próprio estado japonês, onde dentre os acordos com os EUA basicamente ninguém foi culpabilizado pelos crimes de guerra e continuaram no poder. Porém agora, sob a tutela americana os sindicatos são perseguidos, trabalhadores que buscam seus direitos são mortos e qualquer manifestação é hostilizada, principalmente nos anos 60, e temos um país que abre mão de sua cultura popular nacional e também da sua própria identidade, com a burguesia de seu país cada vez mais se maravilhando com os paraísos oferecidos pelos Estados Unidos, época que vem a ser caracterizada como “a era da bolha econômica japonesa”.

https://www.youtube.com/watch?v=NRLppKdK3Dk
O Youtube tem sido a melhor plataforma de recuperação e difusão do City pop no mundo, já que boa parte dos discos só foi lançado no Japão, essa música por exemplo viralizou no Youtube e na internet, principalmente pela famosa capa de outro single (que nem é o mesmo da musica Plastic Love) mostrando a jovem Mariya Takeuchi.

Devido a colaboração dos japoneses com os Estados Unidos a taxa de crédito e de investimentos dentro do Japão aumenta bastante, embora os trabalhadores permaneçam sem voz e explorados; entra o consumismo e o crescimento da tecnologia. Walkmans, jogos eletrônicos e computadores agora fazem parte do mercado mundial e com produtos japoneses sendo de primeira linha. O City Pop surge como a celebração desta era, com o auge da música estrangeira, da disco e da mistura do famoso jazz do passado, com improvisações e ritmos complexos, como uma espécie de “música do futuro”, ou como diria a Mariya Takeuchi, a famosa cantora desse período, um período de Amor Plástico, um som perfeito para uma época de ascensão econômica, onde as coisas pareciam melhorar cada vez mais. É nesse mesmo momento que Tatsuro Yamashita lança seu primeiro single nos anos 80 chamado “Ride on Time”, consagrando o gênero e sendo ele próprio o produtor de vários outros artistas e discos clássicos. Mulheres dentro do cenário musical também ficam famosas, como Miki Matsubara, Junko Ohashi e a cantora que viria a ser a esposa do Tatsuro, Mariya Takeuchi.

No ano de 1981 temos o single que seria a sintetização que melhor definiu o gênero do City Pop, com a música Ruby no Yubiwa de Akira Terao. Ouvimos riffs de guitarra, sintetizadores e improvisações virtuosas dos músicos; a música fala sobre um belo jovem vigarista da cidade falando sobre ter perdido o amor de sua vida, e sobre o anel que ela deixou.

Era a época da tecnologia dos sons internos dos carros, de cada vez mais sistemas de sons inovadores e melhores, influenciando também a estética que vemos hoje de carros luxuosos e estradas sem fim, ou cidades de puro néon brilhando em contraste com o luar e cada transeunte nas ruas buscando seu momento de alegria no meio da noite. Pura poesia urbana.

Porém nos anos 90 a década de sonho japonesa acaba, entra uma grande crise econômica, trazendo o que historiadores chamam hoje em dia de “a década perdida dos anos 90”. O mundo mágico e lindo do City pop já não tinha mais lugar neste mundo brutal onde o Japão agora se encontrava. O gênero deixa de ser atrativo para as camadas mais jovens pois já não havia nenhuma relação com o que viviam, porém ao mesmo tempo é a mesma época que as animações japonesas são importadas principalmente para a América Latina, fazendo com que nós brasileiros e espectadores de outros países se sentissem familiarizados com o City Pop, já que ele pode ser encontrado em aberturas como a do anime Zeta Gundam, Ranma ½, Yu Yu Hakusho (sim, a clássica abertura!), e também influenciando a trilha sonora de jogos conhecidos, como Super Mario Bros.

A familiaridade com a estética do City Pop nos foi trazida pelos próprios animes que chegaram no ocidente.

Essa cultura nos foi apresentada por meio das animações e videogames, já que até artistas como Tatsuro Yamashita nunca tiveram um álbum lançado internacionalmente. As maiores gravadoras da época tinham medo de transportar para o estrangeiro um som tão exclusivo do imaginário japonês e nunca lançou nada no ocidente, porém o gênero foi absolutamente revivido com a popularidade na internet do gênero conhecido como VAPORWAVE, com sua estética retrô e ao mesmo tempo “tecnológica”, dando a roupagem perfeita de sonoridade para os ávidos fãs do gênero Cyberpunk.

Yu Yu hakusho foi talvez um dos maiores exemplos da importação do city pop, até hoje tenho amigos que amam as músicas tocadas no anime.

Na língua japonesa temos uma palavra conhecida como “Natsukashii” que seria aquela sensação dos tempos passados, uma saudade de um cheiro, de uma época, de uma música ou de um lugar que talvez nunca tenha existido. A melhor tradução que temos dessa palavra no ocidente é “nostalgia”, porém ainda incompleta na tradução. Cada vez mais com nossa realidade mais difícil, com o aumento das dificuldades do nosso povo e da “fascistização” de vários países, nos assustamos e buscamos o nosso “Natsukashii”, o nosso City Pop, nossa utopia que nunca vivemos mas da qual sentimos falta. Porém, se quisermos ter um mundo melhor, temos que aprender com as lições que o passado tem a nos ensinar, que a nossa história sempre é de acordo com as condições materiais de suas épocas, levando em consideração tudo que aconteceu no passado, e que o nosso “Natsukashii” seja enxergar a arte do passado, assim como o City Pop, como lembretes de renovação, de que tudo pode se transformar, e que até do presente sombrio possa vir o mais caloroso dia!

E pra finalizar deixo pra vocês uma das minhas músicas preferidas do gênero, uma bela letra esperançosa sobre amor, e é disto que precisamos, esperança por dias melhores!

Texto por: Matheus “Tel” (@Martinianofromars)

Minuteman ZN
De vez em quando, um minuteman convidado aparece aqui na Zona Negativa para resenhar um quadrinho, ou para publicar a próxima matéria que irá, por fim, explodir sua cabeça, subverter a realidade e nos levar ao salto quântico para o próximo nível dimensional. Não sabemos exatamente quem são essas pessoas, a não ser que elas abram mão do anonimato e decidam assinar seus verdadeiros (??) nomes ao final do texto. Mas francamente, 'quem' elas são não é o preocupante. Preocupe-se com as palavras delas, que rastejam lentamente para dentro da sua cabeça. Todos são minutemen. Ninguém é minuteman.
O grande irmão está de olho em você. Aprenda a ser invisível.

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